“Eduquês”, “cientês” e alguns porquês

A educação vai mal, já o sabemos. Os diagnósticos abundam, “novas” soluções recriam velhas receitas e sucessivas medidas vão sendo ensaiadas em sucessão tão vertiginosa que quando estamos a começar a compreender a última reforma já a seguinte está a ser – como agora se diz – “implementada”.

Neste palco de muitos arautos da verdade e poucos conhecedores do assunto, é agora moda o ataque ao dito “eduquês”, tido como culpado do insucesso educativo e responsável pela cultura de facilidade dominante. Não sendo especialista no assunto nem parte comprometida com nenhuma “escola”, parece-me que há neste jogo de acusações algumas curiosidades e paradoxos.

O discurso das ciências da educação tem apontado uma série de críticas à pedagogia tradicional, nomeadamente a sua centração no exame como instrumento avaliativo, o ensino expositivo, a falta de acompanhamento dos alunos ou a ênfase na reprodução como objectivo da aprendizagem. Parece-me difícil desmentir a verdade destas críticas: a escola – em todos os níveis de ensino – está cheia de docentes sem gosto em ensinar, que “despejam” conteúdos de forma totalmente indiferente a quem os ouve, para quem o aluno é pouco mais do que uma obrigação e que querem que aqueles “papagueiem” a matéria tal e qual lhes saiu da boca… porque isso lhes dá lustro ao narcisismo ou simplesmente lhes reforça a convicção de que sabem algo que, se calhar, já leram nos livros há tanto tempo quanto aquele remonta ao momento em que saíram dos bancos da faculdade. Mas também é verdade que esta crítica pode ser confundida – justa ou talvez, em alguns casos, injustamente – com alguma dificuldade em assumir o papel de autoridade dos docentes ou com um discurso de vitimização do aluno, visto como um “bom selvagem” entregue aos desígnios dos maus educadores.

Por sua vez, é fácil aos críticos do “eduquês” ganhar notoriedade, numa fase da vida política em que é de bom tom reivindicar a exigência e rigor e denunciar o facilitismo do passado (onde é que eu já ouvi isto?).

Curiosamente, para tão árduos defensores do rigor, grande parte destes “novos educólogos” – porque obviamente o tentam ser, dizendo que não o são (onde é que eu também já ouvi isto?) – tendem a apropriar mal os conceitos que usam, a confundir mudança da pedagogia com laxismo pedagógico, modificação das práticas avaliativas com inexistência de avaliação ou construção do conhecimento com o mito de que o aluno aprende sozinho. Tendem, também, na forma como recorrem de modo omnipresente à noção de ciência nos seus discursos (contrapondo-a ao “endoutrinamento ideológico” de que acusam os pedagogos), a incorrer numa outra falácia. É que é óbvio que esta argumentação – ainda que brilhante no plano retórico – não é mais do que isso: retórica disfarçada de cientificidade, a ciência transformada em argumento político e moral e usada como arma de arremesso.

O que é curioso, nesta guerrilha verbal, é a aparente incapacidade de perceber que podemos simultaneamente ser críticos em relação aos docentes e à prática pedagógica e ser exigentes em relação aos alunos, sem colocar nem uns nem outros na posição de “vítimas do sistema”. Na pior das hipóteses, a escola (desde o Básico à Universidade) está povoada de professores a contra-gosto e alunos que só lá estão porque a isso são obrigados, que jogam uns com os outros o jogo do “deixa andar”. No melhor dos casos, temos professores que gostam de ensinar e são – por isso mesmo – exigentes, e alunos que percebem que estudar é prazer mas também esforço e perda de outras gratificações mais imediatas.

Construir a melhor destas alternativas exige o fim do jogo de empurra nas culpas pela educação e o entendimento de que a cultura de exigência tem que envolver alunos e professores, a ambos sendo pedido que façam o seu melhor: seja isso transformar a pedagogia ou envolver-se e esforçar-se no estudo. A culpa raramente é boa alavanca da mudança, seja sob a forma de má consciência, seja pela tendência de a imputar a terceiros. No meio deste jogo entre oponentes cegos a qualquer argumentação que não confirme o que já julgam saber, o desfecho típico é a inércia. Quem perde, como é óbvio, somos nós…

 

Carla Machado
in Público
23.3.2006 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s