A vida normal

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Todos passamos a vida a desejar a vida que não temos.

Queixamo-nos do emprego, dos colegas que são chatos, do chefe que não nos dá valor, do muito que trabalhamos e do ordenado que é fraco.

Reclamamos do tempo, que chove e não se pode ir à praia, que não chove e faz mal à agricultura, do sol que é pouco ou demasiado, do suor, do frio e do vento, do calor que nunca mais vai embora e do Verão que nunca mais chega.

A família cansa-nos, mas odiamos quando esta nos ignora; dizemos mal do amigos sem os quais não sabemos passar; suspiramos pelo fim do serão em que as visitas vão embora mas despedimo-nos combinando um novo jantar.

Estamos fartos dos filhos, mas passamos o tempo a falar deles e a mostrar as suas fotografias aos amigos. O barulho que fazem enlouquece-nos, mas o silêncio da sua ausência é insuportável.

Queixamo-nos do marido ou da mulher, que não são como dantes, que nos irritam, que não nos surpreendem, mas suspiramos quando nos faltam e reclamamos quando fazem alguma coisa com a qual não contávamos.

Estamos no Algarve a suspirar pela frescura do Minho, no Minho damos por nós desejosos da brisa costeira, na cidade irrita-nos o artificialismo e em Trás os Montes formigamos com a ânsia de fugir à ruralidade.

E do país, todos nos queixamos do país até ao momento em que “lá fora” concluímos com um orgulho disfarçado que realmente “comer, comer bem, só mesmo em Portugal”.

De queixume em queixume, passamos pela vida muitas vezes sem deixar verdadeiramente que a vida nos atravesse. E só quando somos roubados ao quotidiano que tanto maldissémos damos conta do tempo que perdemos nos lamentos sobre o tempo que os outros nos fazem perder.

Há pouco mais de um mês, numa consulta que era suposto ser de rotina, foi-me diagnosticado um tumor. Felizmente benigno, como soube após 24 horas de espera. E tal como seria de prever, naquele momento inicial em que o espectro de algo mais grave ainda não tinha sido afastado, o meu pensamento imediato foi: “mas afinal porque é que eu estou aqui, afundada em Braga a trabalhar, em vez de ter já há muito tempo fugido para Bora-Bora?”. Passado contudo tal instante, e nas 23 horas que se seguiram, foi da vida normal que tive saudades antecipadas. A vida normal: trabalhar, ir ao cinema, abraçar quem amo, rir-me das pequenas parvoiçes do quotidiano, ver a minha filha a dormir e sentir o seu cheiro.

A vida normal está aqui mesmo ao lado. E aposto que Bora-Bora tem imensos mosquitos.

Paridade = 33%?

Chamo-me Manel e sou Presidente cá da minha junta. No outro dia, vim eu ao café, já depois de jantado, e a malta perguntou-me o que acho daquela lei que foi a votos. O partido, já se sabe, votou contra, nem outra coisa era de esperar. E eu expliquei ao povo, que um “representante eleito” tem que educar as massas:

  1. Todos somos a favor das mulheres na política. Concerteza que sim. Se elas não participam, bom, é porque não querem… Bom senso, já se vê. Quem quer, afinal, tais chatices? Que horror, que canseira… só mesmo os homens, coitados, iludidos com a ideia que mandam. Às mulheres – que sorte a sua (ou sabedoria, que eu cá para mim elas é que andam mais avisadas) – cabem tarefas mais pacatas: a casa, os filhos, a educação…quem sabe até aquelas coisas das artes ou da cultura, para as mais levantadas. Agora a política, credo, a quem é que isso interessa? Contactos, ordenados, influência? As mulheres é que sabem… quietas e sossegadas mandam muito mais, como já o povo diz… Eu é que sei, que a minha Maria ainda ontem me convenceu a passar o domingo em casa da minha sogra em vez de ir à bola. E é o que eu digo, um homem também tem que lhes fazer as vontades de vez em quando, que isto não estamos no tempo do antigamente. Estou para mim que é a sabedoria das mulheres, o tal sexto sentido, que as afasta da política. Mas que a gente até as gostava de ter por cá, pois é claro que sim… até animava a malta!
  2. As mulheres não têm vocação para a política, é sabido. Como disse aquele moço tão sensato daquele partido sexy, “a conflituosidade e agressividade da política afastam-nas”. Que sobre a maneira de ser delas, meu amigo, quem é que não sabe? As mulheres são mais frágeis, mais doces, mais cordatas… Já Santo Agostinho o dizia e no outro dia também deu na televisão. A política não lhes está no sangue, é bom de ver. Agora em casa, no mercado, com as vizinhas… até vou mais longe, na sua profissãozinha (desde que não perturbe as obrigações familiares) aí é que elas estão bem e não há nada a opor. Agora forçar as coitadas a ir para Assembleia, uma vida tão dura… isso é um crueldade que não passa pela cabeça impor às pobrezitas!
  3. De mais a mais, não é natural. A mudança, se tiver de ser, há-de vir. Como veio a justiça social, a protecção das crianças, a dignidade para os emigrantes, o fim da violência, as reformas, o avanço da esperança de vida, o recuo do trabalho infantil, a contracepção… Tudo coisas naturais. Coisas que não dependeram de leis, nem de esforços, nem de fantasias de esquerdalhos que querem sempre tudo diferente do que está. O tempo, se for caso disso, há-de  fazer o seu caminho… e tempo é que não falta às mulheres…
  4. E os costumes, está claro, não devemos interferir com os costumes, as tradições, a cultura do povo. O que temos nós a ver com aquela gente loura lá de cima (daquele país muito rico, que até me esquece o nome), que até tem uma mulher no Governo? – muito feia por sinal! É preciso não ferir os costumes do povo. Até porque, valha-nos Deus, não estamos a falar de costumes daqueles mesmo feios, como queimar as moças quando elas nos irritam (por acaso até ouvi falar disso no outro dia, parece-me que disseram que foi em Ovar, mas devo estar enganado, era na Índia concerteza) ou cortar-lhes as partes. Costumes desses, pronto, são coisas de selvagens e é claro que tem que haver leis para parar com essas poucas vergonhas. Agora os nossos costumes – tão brandos, tão bonitos (uma mulher em casa é como uma flor numa jarra, já dizia a minha santa mãe) – para quê incomodá-los desta maneira?
  5. E, se tudo isto não bastasse, é como dizem aqueles senhores que aparecem nos jornais e na televisão: esta coisa das quotas humilha as mulheres. Pois humilha, não havia de humilhar? Então não se vê a quantidade de gente que anda pr´aí humilhada por ser deputada? Uma mulher saber que está naquele lugar sem ter tido que mostrar que faz mais e melhor? Então não se há-de sentir humilhada? Imaginem só que inventavam esta coisa para os Alentejanos, ou para os Transmontanos? Imaginem que nas Universidades punham esta coisa das quotas para os das ilhas, ou para os atletas, ou para os militares? Valha-nos Deus, que humilhação!

É bom de ver o disparate; só não vê quem não quer. Modernices, é o que diz a minha Maria, que em boa hora levei ao altar. Claro está que não posso dizer isto em voz alta, não fica bem e ainda me acusavam de ser machista… Logo eu, que gosto tanto de mulheres! Mas a coisa é clara como a água, isso é bom de ver. Agora, o que me anda a fazer espécie (e isso é que ainda não vi nenhum daqueles senhores explicar) é porque é que a lei tem aquele nome. Até fui ver ao Dicionário e tudo, aquele muito completo que dei ao meu moço, e lá diz que paridade é “igual”, “equivalente”. Valha-nos o demónio…. e se um dia destes elas se lembram de querer que a coisa seja mesmo igual ao nome? E se alguém se lembra que paridade, paridade mesmo, seria igual a 50%?

 

Carla Machado
in Público
30.3.2006 

“Eduquês”, “cientês” e alguns porquês

A educação vai mal, já o sabemos. Os diagnósticos abundam, “novas” soluções recriam velhas receitas e sucessivas medidas vão sendo ensaiadas em sucessão tão vertiginosa que quando estamos a começar a compreender a última reforma já a seguinte está a ser – como agora se diz – “implementada”.

Neste palco de muitos arautos da verdade e poucos conhecedores do assunto, é agora moda o ataque ao dito “eduquês”, tido como culpado do insucesso educativo e responsável pela cultura de facilidade dominante. Não sendo especialista no assunto nem parte comprometida com nenhuma “escola”, parece-me que há neste jogo de acusações algumas curiosidades e paradoxos.

O discurso das ciências da educação tem apontado uma série de críticas à pedagogia tradicional, nomeadamente a sua centração no exame como instrumento avaliativo, o ensino expositivo, a falta de acompanhamento dos alunos ou a ênfase na reprodução como objectivo da aprendizagem. Parece-me difícil desmentir a verdade destas críticas: a escola – em todos os níveis de ensino – está cheia de docentes sem gosto em ensinar, que “despejam” conteúdos de forma totalmente indiferente a quem os ouve, para quem o aluno é pouco mais do que uma obrigação e que querem que aqueles “papagueiem” a matéria tal e qual lhes saiu da boca… porque isso lhes dá lustro ao narcisismo ou simplesmente lhes reforça a convicção de que sabem algo que, se calhar, já leram nos livros há tanto tempo quanto aquele remonta ao momento em que saíram dos bancos da faculdade. Mas também é verdade que esta crítica pode ser confundida – justa ou talvez, em alguns casos, injustamente – com alguma dificuldade em assumir o papel de autoridade dos docentes ou com um discurso de vitimização do aluno, visto como um “bom selvagem” entregue aos desígnios dos maus educadores.

Por sua vez, é fácil aos críticos do “eduquês” ganhar notoriedade, numa fase da vida política em que é de bom tom reivindicar a exigência e rigor e denunciar o facilitismo do passado (onde é que eu já ouvi isto?).

Curiosamente, para tão árduos defensores do rigor, grande parte destes “novos educólogos” – porque obviamente o tentam ser, dizendo que não o são (onde é que eu também já ouvi isto?) – tendem a apropriar mal os conceitos que usam, a confundir mudança da pedagogia com laxismo pedagógico, modificação das práticas avaliativas com inexistência de avaliação ou construção do conhecimento com o mito de que o aluno aprende sozinho. Tendem, também, na forma como recorrem de modo omnipresente à noção de ciência nos seus discursos (contrapondo-a ao “endoutrinamento ideológico” de que acusam os pedagogos), a incorrer numa outra falácia. É que é óbvio que esta argumentação – ainda que brilhante no plano retórico – não é mais do que isso: retórica disfarçada de cientificidade, a ciência transformada em argumento político e moral e usada como arma de arremesso.

O que é curioso, nesta guerrilha verbal, é a aparente incapacidade de perceber que podemos simultaneamente ser críticos em relação aos docentes e à prática pedagógica e ser exigentes em relação aos alunos, sem colocar nem uns nem outros na posição de “vítimas do sistema”. Na pior das hipóteses, a escola (desde o Básico à Universidade) está povoada de professores a contra-gosto e alunos que só lá estão porque a isso são obrigados, que jogam uns com os outros o jogo do “deixa andar”. No melhor dos casos, temos professores que gostam de ensinar e são – por isso mesmo – exigentes, e alunos que percebem que estudar é prazer mas também esforço e perda de outras gratificações mais imediatas.

Construir a melhor destas alternativas exige o fim do jogo de empurra nas culpas pela educação e o entendimento de que a cultura de exigência tem que envolver alunos e professores, a ambos sendo pedido que façam o seu melhor: seja isso transformar a pedagogia ou envolver-se e esforçar-se no estudo. A culpa raramente é boa alavanca da mudança, seja sob a forma de má consciência, seja pela tendência de a imputar a terceiros. No meio deste jogo entre oponentes cegos a qualquer argumentação que não confirme o que já julgam saber, o desfecho típico é a inércia. Quem perde, como é óbvio, somos nós…

 

Carla Machado
in Público
23.3.2006