Crónicas

Crónicas publicadas no jornal Público, 2006-2010.

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Paridade = 33%?

Chamo-me Manel e sou Presidente cá da minha junta. No outro dia, vim eu ao café, já depois de jantado, e a malta perguntou-me o que acho daquela lei que foi a votos. O partido, já se sabe, votou contra, nem outra coisa era de esperar. E eu expliquei ao povo, que um “representante eleito” tem que educar as massas:

  1. Todos somos a favor das mulheres na política. Concerteza que sim. Se elas não participam, bom, é porque não querem… Bom senso, já se vê. Quem quer, afinal, tais chatices? Que horror, que canseira… só mesmo os homens, coitados, iludidos com a ideia que mandam. Às mulheres – que sorte a sua (ou sabedoria, que eu cá para mim elas é que andam mais avisadas) – cabem tarefas mais pacatas: a casa, os filhos, a educação…quem sabe até aquelas coisas das artes ou da cultura, para as mais levantadas. Agora a política, credo, a quem é que isso interessa? Contactos, ordenados, influência? As mulheres é que sabem… quietas e sossegadas mandam muito mais, como já o povo diz… Eu é que sei, que a minha Maria ainda ontem me convenceu a passar o domingo em casa da minha sogra em vez de ir à bola. E é o que eu digo, um homem também tem que lhes fazer as vontades de vez em quando, que isto não estamos no tempo do antigamente. Estou para mim que é a sabedoria das mulheres, o tal sexto sentido, que as afasta da política. Mas que a gente até as gostava de ter por cá, pois é claro que sim… até animava a malta!
  2. As mulheres não têm vocação para a política, é sabido. Como disse aquele moço tão sensato daquele partido sexy, “a conflituosidade e agressividade da política afastam-nas”. Que sobre a maneira de ser delas, meu amigo, quem é que não sabe? As mulheres são mais frágeis, mais doces, mais cordatas… Já Santo Agostinho o dizia e no outro dia também deu na televisão. A política não lhes está no sangue, é bom de ver. Agora em casa, no mercado, com as vizinhas… até vou mais longe, na sua profissãozinha (desde que não perturbe as obrigações familiares) aí é que elas estão bem e não há nada a opor. Agora forçar as coitadas a ir para Assembleia, uma vida tão dura… isso é um crueldade que não passa pela cabeça impor às pobrezitas!
  3. De mais a mais, não é natural. A mudança, se tiver de ser, há-de vir. Como veio a justiça social, a protecção das crianças, a dignidade para os emigrantes, o fim da violência, as reformas, o avanço da esperança de vida, o recuo do trabalho infantil, a contracepção… Tudo coisas naturais. Coisas que não dependeram de leis, nem de esforços, nem de fantasias de esquerdalhos que querem sempre tudo diferente do que está. O tempo, se for caso disso, há-de  fazer o seu caminho… e tempo é que não falta às mulheres…
  4. E os costumes, está claro, não devemos interferir com os costumes, as tradições, a cultura do povo. O que temos nós a ver com aquela gente loura lá de cima (daquele país muito rico, que até me esquece o nome), que até tem uma mulher no Governo? – muito feia por sinal! É preciso não ferir os costumes do povo. Até porque, valha-nos Deus, não estamos a falar de costumes daqueles mesmo feios, como queimar as moças quando elas nos irritam (por acaso até ouvi falar disso no outro dia, parece-me que disseram que foi em Ovar, mas devo estar enganado, era na Índia concerteza) ou cortar-lhes as partes. Costumes desses, pronto, são coisas de selvagens e é claro que tem que haver leis para parar com essas poucas vergonhas. Agora os nossos costumes – tão brandos, tão bonitos (uma mulher em casa é como uma flor numa jarra, já dizia a minha santa mãe) – para quê incomodá-los desta maneira?
  5. E, se tudo isto não bastasse, é como dizem aqueles senhores que aparecem nos jornais e na televisão: esta coisa das quotas humilha as mulheres. Pois humilha, não havia de humilhar? Então não se vê a quantidade de gente que anda pr´aí humilhada por ser deputada? Uma mulher saber que está naquele lugar sem ter tido que mostrar que faz mais e melhor? Então não se há-de sentir humilhada? Imaginem só que inventavam esta coisa para os Alentejanos, ou para os Transmontanos? Imaginem que nas Universidades punham esta coisa das quotas para os das ilhas, ou para os atletas, ou para os militares? Valha-nos Deus, que humilhação!

É bom de ver o disparate; só não vê quem não quer. Modernices, é o que diz a minha Maria, que em boa hora levei ao altar. Claro está que não posso dizer isto em voz alta, não fica bem e ainda me acusavam de ser machista… Logo eu, que gosto tanto de mulheres! Mas a coisa é clara como a água, isso é bom de ver. Agora, o que me anda a fazer espécie (e isso é que ainda não vi nenhum daqueles senhores explicar) é porque é que a lei tem aquele nome. Até fui ver ao Dicionário e tudo, aquele muito completo que dei ao meu moço, e lá diz que paridade é “igual”, “equivalente”. Valha-nos o demónio…. e se um dia destes elas se lembram de querer que a coisa seja mesmo igual ao nome? E se alguém se lembra que paridade, paridade mesmo, seria igual a 50%?

 

Carla Machado
in Público
30.3.2006 

  1. “Eduquês”, “cientês” e alguns porquês Deixar uma resposta